15 de abril de 2014

Foco errado



Muito se discute, afinal, sobre a questão do copo cheio ou vazio ... otimista, pessimista ...

As pessoas tem um foco absolutamente torto da situação ... no fim das contas não interessa se o copo tá meio cheio ou meio vazio ... o que interessa é o que tem dentro dele ...

20 de março de 2014

O Manifesto da Vergonha

             
              Era uma tarde comum de terça-feira. O sol não se decidia se ficava no céu ou deixava espaço para algumas nuvens que passavam manhosas por seu caminho. O homem andava no meio do turbilhão de pessoas pelo calçadão no horário do almoço. Somado ao alvoroço já comum daquele horário o homem notou uma junção gigantesca de pessoas mais a frente. Apesar do pouco tempo que tinha para o almoço a curiosidade venceu a sua habitual racionalidade. Seguiu em frente para ver do que se tratava.
           Um agrupamento de jovens se manifestava. Pelo que notou a princípio parecia se tratar de algo como aumento de passagens de ônibus, ou algo do gênero. Aquilo já parecia comum naquela época. Ficou algum tempo parado ali olhando e pensando na vida. Perdido em lembranças e devaneios. No meio daquela turba avistou um garoto jovem. Devia ter por volta de 18 anos e gritava com força aos quatro ventos palavras de ordem e pedidos por mudança. Parecia trajado da própria ideologia e não tinha medo de demonstrar aquilo.
          O garoto notou aquele homem que parecia meio perdido em meio àquele contexto. Olhando abismado para uma situação que parecia já ser corriqueira. Olhando com olhos que pareciam conter um misto de estranheza e identificação.
                E ali estava aquela dicotomia, pareada pelo tempo e pelo espaço. Um garoto de 18 anos vestindo jeans rasgados, camisa de flanela e cara pintada. Um homem adulto, vestindo terno e gravata, uma pasta de couro e uma coleira invisível no pescoço. E o homem pensava, e lembrava de dias diferentes. Dias em que acreditava mais, vivia mais, pensava mais. O homem sentiu uma semelhança imensa daquele garoto com seus dias de juventude, e assim sendo viu o quanto as coisas haviam mudado. O garoto olhou para o homem com um olhar de esperança, como se aquele homem fosse ali mesmo arrancar a gravata e se juntar à passeata que pensava em todos. Que aquele homem ia esquecer da necessidade criada por ele mesmo de ganhar mais e mais para si, muitas vezes sem nem mesmo trabalhar o suficiente para aquilo.
             E aquele garoto pensava, olhando aquilo, como alguém se deixava levar por aquele caminho? Como alguém podia entregar sua liberdade e sua criatividade? Como alguém podia se vender por algo tão pouco valioso como dinheiro? E nesse momento o homem pensava como aquele garoto podia ter aquela coragem, de não ligar pra absolutamente nada a não ser suas próprias ideias e vontades. E o homem pensava em que momento tudo havia se tornado tão diferente. Aonde em meio ao caminho tinha ficado tudo aquilo que fazia dele, ele mesmo.
              Cruzaram olhar, e um segundo depois a marcha continuou, com o garoto bradando a verdade aos quatro ventos. O homem estancou, pegou sua pasta escorada em sua perna, no chão, e seguiu seu caminho para o almoço. Um era a ideologia em pessoa, o outro um avatar da vergonha e desapontamento.

14 de fevereiro de 2014

Aconteceu Num Sábado a Noite



                Era sábado a noite, um sábado qualquer na cidade que não dormia nunca. O primeiro garoto era negro, nascido pobre, trabalhara desde cedo no que podia, comia o pão que o diabo amassou, não conhecia o pai. O segundo era branco, loiro e de olhos azuis, o pai era um influente empresário.

                O primeiro descia o morro sempre que podia pra ir à praia. Gostava de assistir ao futevôlei na areia, as ondas quebrando na beira do mar, de vez em quando até entrava na água, mas gostava mesmo era da vista daquelas vidas que, sonhava ele, podiam ter sido a sua. O segundo também adorava a praia, ir com os amigos, beber umas cervejas, azarar, surfar de vez em quando.

                O primeiro gostava de desenhar, muitos chamavam pichação, para ele era arte, de rua, sempre a rua. O segundo não gostava, gastava, e era isso. O primeiro não usara drogas nunca, era limpo, mesmo com todas as possibilidades ao redor. O segundo perdia as contas do que já havia feito e visto.

                E veio o sábado a noite, o primeiro sentia fome, e andava pela rua, a mãe não tinha emprego, os irmãos estavam perdidos, por uma razão ou outra, e ele seguia com a arma no bolso da jaqueta de moletom. O segundo voava pelas avenidas no seu carro, um fardo de cervejas adornava o assento do carona. 110km ... 120km ... as luzes riscavam o para brisas como pequenas explosões de êxtase.

                O primeiro gritou, a mulher gritou, e por fim a polícia gritou. O segundo gritava extravasando a futilidade e inutilidade daquela existência. A polícia correu atrás do primeiro, e em um beco sem saída viu o garoto encurralado. Ele levantou as mãos, com calma, e um tornozelo vilão o fez tropeçar. O segundo acelerava cada vez mais o seu carro.

                BANG, o primeiro caía lentamente no calçamento com uma bala no peito. BANG o segundo atingia rapidamente um inocente pedestre em uma faixa de segurança. O primeiro nunca mais desenharia, nem contemplaria o mar calmo e macio. O segundo gozaria da influência do pai e do capital.

                 Um deles era, o outro tinha. E entre o ser e o ter não se desenham tons de cinza. Há uma fissura, quase intransponível. A vida do primeiro era regida por leis básicas e inquebrantáveis, a do segundo era regida apenas pela própria vontade. E nesses sábados a noite, domingos a tarde e segundas pela manhã, muitos outros BANGs eram escutados pela cidade. E através da madrugada o som se espalhava com o vento forte pelas ruas. Carregava a certeza de que mais uma vez a justiça não enxergara o que deveria ter enxergado. Maldito som esse que acabava com razão, palavras e sonhos. BANG, era o que espalhava a notícia de que há algo de muito errado nos nossos valores. BANG, a tristeza agora tinha um som.

16 de outubro de 2013

A Beleza Está Nos Olhos de Quem Cria

  
             – Só preciso de uma garrafa de vodka e uma companhia pra conversa ao longo da madrugada fria...
            É assim que começa. Início da noite. No bar já toca, há mais de cinco minutos, um álbum dos Smiths e isso deixa Pedro totalmente deprimido.
             The Smiths. Que bandinha bem boa... – diz ele ao ver o próprio reflexo na superfície do copo arredondado – tem momentos da vida da gente que só Morrissey entenderia ...
             Como assim? – pergunta Bernanrdo, dando uma risada por conta do comentário do amigo.
           Oras como assim! Quero dizer que tem alguns poetas que conseguem entender no fundo algumas emoções que nós sentimos, eles interpretam aquilo, preveem o sentimento, saca?
             Eu acho que tu já bebeu demais cara... – decreta Bernardo, com um ar meio superior.
           Não não não! Isso não tem nada a ver com bebida ou cigarro ou café. Tudo bem, eu admito que algumas substâncias lubrificam alguns recessos da nossa mente, mas no meu caso é pura e simples constatação. – enquanto fala isso, Pedro levanta a mão em busca de algum garçom.
            Quem atende é uma garçonete com cabelos ruivos presos em um coque bastante justo na parte superior da cabeça.
             Mais uma Polar, guris? – inquire ela, enquanto pega a garrafa vazia de cima da mesa.
             Por favor, Ju... – pede Pedro com uma expressão de alegria – a mais gelada que tiver!
           No momento em que ela vai em direção à parte de dentro do bar, Pedro acende um cigarro com o final do anterior, da uma tragada longa e se volta ao amigo.
            Pois bem, como eu ia dizendo. A verdade é que o poeta tem uma alma extremamente sensível às diferentes mudanças ao redor. É isso que faz dele descritivo de forma exagerada, sofredor de forma extremamente dolorida, PORÉM... – Pedro corta a frase de surpresa, leva o cigarro mais uma vez a boca, da uma tragada e exala a fumaça pelo nariz.
           Nesse momento Bernardo ri consigo, é clássico ao amigo dar esse tom dramático aos seus discursos regados à cerveja. Além disso, traga o cigarro como se dele retirasse sua essência vital, como se estivesse em um longo mergulho, e cada tragada representasse o momento que vai à superfície em busca de ar.
          PORÉM... – repete Pedro - ... ele precisa também de uma inspiração. Aí está, a característica ambígua do poeta, ao mesmo tempo que deve sentir sem ter vivido, deve buscar viver aquilo que sente. É quase como se ele fosse um náufrago no meio do oceano, ele precisa da condição de náufrago sofredor pra continuar fazendo a arte dele, porém é preciso que esse náufrago tenha algo de concreto pra que essa arte seja alcançada. Como um bote... isso... um bote. O poeta é um náufrago no mar da vida, navegando em um bote, ao mesmo tempo em que sua situação é de um sofrimento sem fim, ele precisa ter a sensação de que um dia, em algum momento, a situação dele pode mudar, o fio de prata da esperança, ou a cenoura na frente do burro, como tu preferir. – conclui Pedro, com tom professoral, como se tivesse acabado de fazer uma descoberta incrível no campo da física quântica.
           Hmmm, ok. Suponhamos então que em toda poesia de amor, o que tá ali no papel é o que? Um desejo incontido por uma pessoa linda e inalcançável? – pergunta Bernardo, entrando no clima da discussão.
             Aí é que está o ponto! – exclama Pedro, dando mais uma tragada no cigarro e exalando a fumaça pelas narinas – Talvez a parte do inalcançável seja verdade, mas a parte do linda, aí se encontra a maior construção do romantismo na história do mundo. A beleza da pessoa desejada é, em última instância, ilusória. Fumaça e espelhos, na mente de uma pessoa que vive entre dois mundos, o real e triste e o idílico e perfeito.  São as sombras na parede da caverna, as sombras são uma ilusão, mas uma ilusão causada por algo concreto, vivo e existente. A beleza são essas sombras.
          Isso significa que não existe beleza? – pergunta Bernardo, conrrigindo-se rapidamente – Ou melhor, não existe beleza unânime?
          Tecnicamente o que existe é a idealização, é aí que eu chego no meu ponto. Todas essas descrições da literatura, desde a Capitu do Machado até a Sybil Vane do Oscar Wilde. Pura criação da mente absolutamente em transe de pessoas comuns. Talvez os olhos de cigana da Capitu fossem sem graça, as faces alvas da Sybil completamente esquecíveis. Quando tu vens e me pergunta se todas as “mocinhas” do romantismo são os avatares de Afrodite na terra eu te respondo. Obviamente que não! Elas são os avatares da mente completamente arrebatada de seus seguidores.
           A beleza está nos olhos de quem vê... – cita Bernardo, dando uma risada.
         NÃO! Não me venha com clichês baratos, talvez essa frase esteja certa, mas o meu ponto não é esse... – se irrita Pedro, a despeito da frase de Bernardo ter sido uma brincadeira -  o que eu quero dizer é simples, é que toda a beleza e toda a perfeição que o romantismo criou não passam de um resultado ilusório, são fruto do hipnotismo, da fixação de homens por mulheres, por outros homens, por animais, pelo mundo...
             Cara, essa forma de ver as coisas é meio deprimente...
          The Smiths me deprime... – comenta Pedro, dá uma bicada no seu copo de cerveja e mais uma tragada em seu cigarro.
           Um casal se aproxima dos dois amigos sentados na mesa de madeira do bar, todos se cumprimentam com grande entusiasmo, puxam um par de cadeiras, ao mesmo tempo que Pedro levanta a mão em direção a algum garçom. A garçonete do cabelo ruivo novamente responde ao chamado.
             Vê mais duas garrafas, pelo visto a plateia aumentou e a noite mal começou...

28 de maio de 2013

A Maldição do Vampiro – Parte II




            Os dois homens se encontram sentados em um café. Duas xícaras fumegantes depositadas nas mesas de pedra semelhantes a mármore. Ambos parecem conversar de forma entusiasmada sobre a vida, o universo e tudo mais.
            - E então, vai me explicar afinal qual é a grande sacada desse roteiro?
            - Oras, é simples cara. A maldição do vampiro é uma alegoria da condição humana. É tudo muito simples, mas requer um pouco de conhecimento dessa mitologia tão confusa e que tá tão na moda. Eu explico:
            O vampiro é um parasita por natureza. Ele não tem vida própria. Não tem vida dentro de si, apenas órgãos mortos e que não funcionam. Sua existência se encontra ligada diretamente à escuridão e à noite. Dessa forma ele rasteja nas sombras e observa. Só observa, sem ter interação verdadeira. Afinal, o mundo não é seu lugar por excelência, ele apenas o habita, mas não vive de fato nele.
            Assim ele segue nessa existência sem sentido. Ou melhor, com apenas um sentido, sim o vampiro tem um objetivo, mesmo que ímpio. O vampiro clama por sangue, é apenas naquele momento, em que se alimenta, em que abraça e beija sua vítima é que ele se sente vivo. Um parasita de fato, que precisa dos outros para ter seus poucos minutos de alegria e dádiva. É apenas enquanto dura o efeito daquele sangue em seu organismo sobrenatural que seus órgãos se movem. É ali, naquele momento que seu coração bate, de forma extremamente fraca, mas ele sabe, ele sente. O problema é que isso não dura, afinal, é uma existência roubada, que ele não mais possui. Dessa forma, o vampiro existe, mas não vive a vida, não verdadeiramente. Como um fantoche vazio de significado e vida, apenas movido de forma mecânica.
            É explicado dessa forma, entendendo o vampiro dessa forma que entendemos que os vampiros existem de fato. E em grande quantidade. Há pessoas de todos os jeitos que vivem a vida dessa mesma forma. Como cascas ocas sem objetivo específico. Apenas vivem. E eu não digo que sejam pessoas más. Não digo que necessariamente se alimentem dos outros, mesmo que existam os que fazem isso. São apenas pessoas sem objetivo, sem foco específico. Seus órgãos não batem mais, ele não mais respira, seu coração atrofiado, o gosto do alimento é como cinzas e pó em sua boca. Esse é o vampiro, lhe foi negada a existência plena, pela razão que for.
            O vampiro carrega em si toda tristeza do mundo, e segue assim, com apenas alguns momentos que sente que talvez possa ver um raio de luz, seu coração ameaça se movimentar como um espasmo residual de memória muscular. Afinal, se existe uma dúvida nesse mecanismo todo é a existência, ou não, de uma forma de quebrar essa maldição.
            Muitos dizem que a reposta para isso é tomar as rédeas da própria vida. É deixar de ser apenas um sobrevivente e se transformar em agente de mudança. Só dessa forma o vampiro pode, talvez, quebrar esse vício, essa maldição. Viver por si e não apenas esperar apenas pequenos raios de sol que possam surgir, pequenas gotas de sangue vital a dar uma falsa esperança. É preciso quebrar o pó e largar as amarras. É só assim que determinadas pessoas podem sair da situação de “não-vivo” para finalmente enxergar de novo o sol com os próprios olhos.

João Carlos Radünz Neto – 27/05/2013 – 20:42